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José Ricardo de B. Martins no site Startupi - Muito mais que $$$.
07/07/2016

Muito mais que $$$.

 

Vivemos tempos bastante curiosos. Até pouco tempo atrás, predominava no país uma atmosfera de grande aversão ao risco, resultado de altas taxas de juros e também de um mercado de capitais pouco maduro, o que dificultava muito o acesso ao capital por parte de startups, principalmente em seus estágios mais embrionários.


Termos como “Anjos” ou “Capital Semente” eram como cabeça de bacalhau: dizia-se que existiam, mas ninguém nunca tinha visto.


Eis que, com a virada do século, passamos a acompanhar uma rápida revolução nessa atmosfera de aversão ao risco, à medida em que diversas startups passaram a colher resultados expressivos em curtos intervalos de tempo – o que se tornou possível em grande parte graças à popularização da internet e à famosa globalização que, apesar de clichê, é inegavelmente o fator que mais diretamente contribuiu para que diversos negócios se proliferassem mundo afora, numa velocidade nunca antes imaginada.


Diante desse quadro, aquele cenário de aversão ao risco passou a mudar muito rapidamente, resultando na criação de uma verdadeira comunidade de investidores anjo e pequenos fundos voltados para startups, principalmente aquelas relacionadas a novas tecnologias e modelos de negócios.


Porém, se por um lado o acesso ao capital para startups é hoje um pouco mais fácil, há, ainda um outro grande empecilho ao sucesso dessas empresas que precisa ser solucionado. Falo aqui da necessidade – tão ou maior do que o próprio acesso ao capital – que todo o empreendedor tem de encontrar alguém que, ao acreditar no seu projeto, esteja disposto a vivencia-lo na prática.

E aqui chegamos a um ponto crucial: dinheiro normalmente não é o bem mais valioso para uma startup. Vivemos num tempo em que, tão importante quanto o investidor anjo, é o “cliente anjo” – aquele que, ao adotar a solução desenvolvida pela startup, poderá levar à validação do projeto perante o mercado, permitindo ao empreendedor colocar o ovo em pé.


Infelizmente, esse anjo ainda é muito mais raro do que aquele primeiro. Isso porque, de maneira geral, colocar em prática um produto, serviço ou modelo de negócios inovador no mercado requer muita dedicação, conhecimento do negócio e acima de tudo, resiliência para enfrentar os obstáculos que certamente surgirão.


A boa notícia é que esse cenário parece estar finalmente mudando. E rapidamente.


Isso porque as grandes empresas, as quais vivem aprisionadas a métricas de performance que as obrigam a focar no curto prazo (o que costumo chamar de “ditadura do quarter”), parecem ter definitivamente se dado conta de que aquilo que as trouxe até aqui não será suficiente para mantê-las no topo a longo prazo.


Porém, a tal “ditadura do quarter” simplesmente as impede de investir adequadamente em inovação dentro de casa – algo que, na esmagadora maioria das vezes, não se alcança a curto prazo. Prova disso é que maioria dos modelos de negócios e tecnologias inovadoras de hoje em dia surgiu dentro de startups.


Assim, começam a se proliferar pelo país iniciativas de grandes empresas, dedicadas a apoiar o empreendedorismo e a inovação, em decorrência da conscientização de que é mais fácil alcançar bons resultados se esse movimento estiver protegido das expectativas de curto prazo que predominam no dia a dia empresarial.


Essas inciativas, muitas vezes denominadas de “corporate ventures” (que podem adotar diversos formatos e dinâmicas), parecem vir se consolidando como uma alternativa para as startups que vivem em busca do cliente anjo para validar o seu negócio. Afinal de contas, uma vez confirmada a viabilidade do seu projeto dentro desses programas, a startup passa a contar com o apoio da estrutura de vendas e marketing da grande empresa que a patrocinou para levar sua solução ao mercado.


Resta agora torcer para que esse movimento se consolide rapidamente, a fim de que, assim como ocorreu com o acesso ao capital, também experimentemos, o quanto antes, um aumento significativo no número de empresas dispostas a desenvolver programas de apoio ao empreendedorismo e inovação, com o que não só estarão a contribuir para o amadurecimento da cultura do empreendedorismo no país, mas também estarão garantindo o futuro dos seus negócios no longo prazo.

 

Quinta-feira, 7 de julho de 2016

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José Ricardo de Bastos Martins é advogado, sócio coordenador da área de M&A do Peixoto & Cury Advogados e presidente do Comitê de Empreendedorismo da ABRADi.
A ABRADi (Associação Brasileira de Agentes Digitais) é uma entidade de classe, sem fins lucrativos, que defende os interesses da empresas desenvolvedoras de serviços digitais no Brasil. A entidade reúne cerca de 700 empresas, presente em 14 estados.