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José Ricardo de B. Martins no site Startupi - Brasil - Vale a pena empreender?
18/04/2016

Quais fatores fazem do Brasil um mercado em que vale a pena empreender?

 

* Por José Ricardo de Bastos Martins


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Em meu último artigo para esta coluna tratei de discorrer sobre os principais fatores que, em minha opinião, têm contribuído para tornar a vida do empreendedor brasileiro muito mais difícil do que o merecido. Mas, como diria Bill Munny, personagem de Clint Eastwood no clássico “Os Imperdoáveis”: “merecer não tem nada a ver com isso”.


Desta vez, porém, proponho-me um desafio ainda maior: tratar de certos fatores que, apesar de toda a crise, ainda fazem do Brasil um mercado em que vale a pena empreender.


E esses fatores existem?


Penso que sim. Vejamos, por exemplo, as diversas iniciativas voltadas a formar mentes empreendedoras e fomentar o colaboracionismo entre elas, tais como os inúmeros espaços de coworking que crescem a cada dia nas grandes cidades brasileiras. Esse fenômeno revela que, apesar da tempestade política-econômica ora em curso, a disseminação da cultura do empreendedorismo nunca ocorreu de maneira tão intensa e rápida como nos últimos anos.


É verdade que a burocracia para a abertura de negócios, os altos tributos e o crédito caro são fantasmas importantes a serem vencidos. Mas nem eles serão capazes de impedir o inegável fenômeno de que nunca houve tanta gente – e cada vez de idade mais jovem – assumindo o risco de trocar a rota de um emprego estável pelo sonho de construir o seu próprio negócio.


Em diversos casos, deve-se admitir, não tem sido exatamente uma opção; mas, para muitos empreendedores, trata-se de uma alternativa simplesmente não cogitada pela esmagadora maioria das pessoas que adentraram o mercado de trabalho nas gerações anteriores do país. A cultura brasileira, os paradigmas sociais etc. têm mudado velozmente numa direção em que, indubitavelmente, a próxima geração formará mais empreendedores do que jamais visto.


Até mesmo a crise econômica pode ter, sob certo ponto de vista, um efeito positivo sobre o ecossistema do empreendedorismo, pois a necessidade de corte de custos para conter a perda de lucratividade decorrente da diminuição das receitas é exercício muito mais penoso e necessariamente mais lento nas maiores e mais consolidadas empresas do que nas startups, convertendo o caráter embrionário do modelo de negócios destas últimas em vantagem competitiva.


Ainda mais se considerarmos que a maior parte das atuais startups já nasce fortemente calcada no ambiente digital, enquanto que essa migração continua a representar um sério desafio para as grandes empresas.


Até mesmo a alta do dólar poderia ser vislumbrada como um fator positivo para parte das startups, especialmente aquelas relacionadas a serviços com modelos de negócios escaláveis globalmente. Isso porque, num processo de internacionalização, com seus custos em moeda brasileira e preços em moeda estrangeira, tendem a se tonar altamente competitivas.


A Revista Veja, em sua edição de 14 de abril de 2016, trata, com grande destaque dos empreendedores brasileiros que escolheram deixar o Brasil, em grande parte desmotivados pelo ambiente de insegurança social, política e econômica em que vivemos.


Porém, apesar dos motivos serem reais e sérios, não podemos deixar de ter mente que as crises costumam revelar grandes oportunidades. Em texto publicado na sua coluna na Folha de São Paulo de 21 de julho de 2015, o empresário Nizan Guanaes relata: “Quando fui estudante de intercâmbio e morava numa fazenda em Iowa, minha família americana usava o inverno rigoroso para consertar as coisas e repor o que faltava. Vamos usar esse inverno para consertar nossas empresas, reduzir custos, ganhar produtividade e ver não só crise na crise, mas oportunidades também. Vamos honrar os homens que aqui ficaram no passado de tantas dificuldades. Honrar os empreendedores que fizeram coisas importantes sob as mais altas taxas de inflação e todo tipo de crise e plano econômico. Vamos honrar homens como Abilio Diniz, Roberto Medina, Washington Olivetto, todos, ex-sequestrados, que seguiram empreendendo aqui quando tinham todos os motivos para ir embora”.


Enfim, não pretendo convencer você, empreendedor brasileiro, de que haja motivos para sair comemorando. Mas vale lembrar que ninguém disse que seria fácil. Certamente, a vontade de vencer, que é a marca do empreendedor brasileiro, tão habituado a contornar obstáculos de toda a ordem, irá ajuda-lo a atravessar a tempestade que vivemos. E, como tudo que não o derruba, o fortalecerá.


E como haverá, necessariamente, cedo ou tarde, a retomada do consumo interno, que levará ao barateamento do crédito, e, assim, à retomada do crescimento (já que nem mesmo todo o egoísmo e incompetência da classe política brasileira têm o poder de deter esses fenômenos, hoje mais ligados à economia global do que à vontade dos nossos líderes), entendo possível, com a devida licença poética para exagerar um pouco no otimismo, que ainda há motivos para levantar todas as manhãs e lutar pelo seus sonhos.

 

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José Ricardo de Bastos Martins é advogado, sócio coordenador da área de M&A do Peixoto & Cury Advogados e presidente do Comitê de Empreendedorismo da ABRADi.

 

 


 

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A ABRADi (Associação Brasileira de Agentes Digitais) é uma entidade de classe, sem fins lucrativos, que defende os interesses da empresas desenvolvedoras de serviços digitais no Brasil. A entidade reúne cerca de 700 empresas, presente em 14 estados.

 

 

Portal Startupi, segunda-feira, 18/04/2016